ID Sudoeste: Colaboração, território e futuro

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 Na destilaria também se fermentam ideias para escrever coletivamente o futuro do turismo que queremos no Sudoeste 


“Foi o medronho que me descobriu.” A frase, partilhada por Afonso enquanto nos contava como começou a sua história com este fruto silvestre, resume bem a relação profunda que muitas pessoas do Sudoeste têm com este território.  

O medronho representa uma ligação à terra, uma forma paciente de trabalhar com a natureza e saberes antigos. Representa também uma tradição das gentes do Sudoeste que no passado aquecia pessoas entretidas à mesa em torno de conversas, poesia popular e desgarradas.  

Lisboeta regressado de um período de largos anos a viver em África e na América latina, Afonso Pereira instalou-se em São Miguel, no concelho de Odemira, em 2014. 

Enquanto procurava o caminho a seguir na região que escolheu como sua nova casa, acabou por ‘tropeçar’ com frequência no arbusto, no seu terreno, e no ‘néctar’ do seu fruto, a aguardente de medronho, em cafés e tascas. Nesta tradição ‘meio escondida’, como descreve, encontrou uma forma de se ligar à terra e de desenvolver o seu negócio.  

Procurou informação, aprendeu e adaptou, inovando nos processos de produção para reavivar, dar visibilidade e elevar um produto que na realidade estava em todo o lado, mas em ‘prateleiras escondidas’. E criou a destilaria Junior Jacques, onde a magia acontece: um local de alquimia, produção e visitação. 

A visita guiada por Afonso abre as portas a um processo que combina tradição, técnica, inovação e sensibilidade. Do fruto colhido no montado à fermentação, do funcionamento do alambique ao momento final da destilação, cada etapa revela a importância do tempo, da experiência e do cuidado. 

A destilaria como espaço de encontro e reflexão

O momento de degustação final da aguardente de medronho que produz, nem é o mais importante da visita, acredita o proprietário, que preside também à Arbutus – Associação para a Promoção do Medronho. A descoberta, o convite a compreender melhor o valor cultural e humano por trás de um produto local como o medronho acaba por ser o principal. 

As histórias sobre o medronho e a destilaria contadas pelo Afonso, concluíram um dia de trabalho dedicado a trilhar caminhos e perspetivas para a concretização de projetos no âmbito do consórcio ID Sudoeste na região. 

À visita guiada precedeu, neste ambiente convertido em sala de reuniões, o 6.º encontro entre parceiros do consórcio liderado pela Rota Vicentina no âmbito do PROVERE*, constituído por mais 15 entidades, das quais faz também parte a destilaria Junior Jacques e a Arbutus. 

Enquanto o vento gelado sacode a paisagem lá fora, o alambique a fervilhar aquece o dia frio de março cá dentro, ao ritmo do desenrolar dos trabalhos. 

A procura de respostas é contínua e a partilha de ideias e definição de ações concretas, individuais e em conjunto, na mesma direção é feita, não só, mas também nestes encontros trimestrais entre os parceiros do consórcio. Ao mesmo tempo procura definir-se melhores formas de colaboração e para continuar a cuidar do território e das comunidades que tornam o Sudoeste único. 

Fermentação de Ideias

Unir consenso em torno de uma visão comum entre todos os intervenientes – empresários de turismo, produtores agrícolas e entidades públicas locais – com projetos próprios é um desafio constante a que a Rota Vicentina, enquanto líder do consórcio, tem procurado responder. Estes encontros trimestrais são momentos raros para parar, partilhar, ouvir e fortalecer ligações. 

Talvez possamos chamar-lhes uma verdadeira fermentação de ideias. Tal como acontece com o medronho, que lentamente se transforma, pedindo tempo para absorver, apurar e dar forma a algo novo, também este projeto comum cresce e ganha profundidade através da colaboração, da confiança e da vontade partilhada de regenerar o território. 

O trabalho do consórcio ID Sudoeste continua. Depois deste encontro, que decorreu a 6 de março, o próximo, previsto para maio, combinará uma visita à Escola de Pastores com um momento de reflexão e aprendizagem conjunta sobre as pastagens e pastores como elementos-chave para a gestão da paisagem e a valorização da experiência turística. 

* PROVERE – Programa de Valorização Económica dos Recursos Endógenos 

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Ângela Nobre

Alentejana de espírito inquieto, olhar atento e curiosa profissional – um traço de personalidade que os anos dedicados ao jornalismo poderá ter agravado. Na equipa de Marketing e Comunicação da Rota Vicentina desde 2026, mantém um pé no trilho, onde tudo começa e as ideias respiram. Porque antes de comunicar, é preciso viver o território.

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