ID Sudoeste: Identidade como referência para uma visão partilhada do território
8 minutos de leituraIdentidade, Inovação e Governança Colaborativa
Termos que estão na moda e que importa concretizar, sendo que esta temática está no coração do Consórcio “ID Sudoeste”, liderado pela Rota Vicentina, que arrancou em 2024 e termina no final de 2026. “Id” de Identidade, mas também de um “Ideal” no Turismo.
É preciso reinventar o turismo e a sua relação com os territórios: a Identidade, como referência para uma visão partilhada do território. No Sudoeste e no Mundo, a Inovação tem de ser acolhida como um espaço comunitário e institucional de questionamento, experimentação, co-criação de um novo futuro.
É aqui que entra a Governança Colaborativa, sendo que o PROVERE* pressupõe uma “estratégia colectiva” ao nível territorial.
Não se trata de planos por sector, trata-se de um espaço de diálogo, regular, eficiente, criativo e inspirador, que dê as respostas que importam: as da integração, a gestão partilhada da paisagem, a co-responsabilização pelos resultados, a capacidade de monitorização e reavaliação, as sinergias do dia a dia, as caras e as vontades, o entusiasmo e a noção de que o todo pode ser tão maior do que a soma das partes.
E mais do que “vamos colaborar para (nos) governar(mos) melhor”, o desafio foi trabalhar sobre a forma e qualidade da colaboração. E o que isso quer dizer, como se faz?
A resposta é: capacitando, questionando, (re)fazendo e aprendendo. Focar nas pessoas que habitam, cuidam e são o território em representação das instituições e do seu potencial real de colaboração. Focar nos sistemas sociais enquanto sistemas humanos, com motivações, receios, ideias, sonhos, conhecimento, curiosidade, e alinhar o que realmente existe em comum, no grupo, nos sub-grupos que se vão formando mais ou menos espontaneamente.
E sim, é um caminho muito longo, é todo um paradigma depois de décadas de trabalho muito focado nas hierarquias, nos programas comunitários, e na tecnocracia, e estamos a experimentar, semear, lançar raízes.
Turismo Regenerativo e de Aprendizagem
O Turismo Regenerativo contribui, por definição, para a regeneração do território. Mas com processos de degradação tão complexos e sistemáticos, o único caminho viável é trazer foco à percepção do impacto positivo, individual e colectivo.
Quem escolhe o Sudoeste para passar uns dias de férias, tem precisamente a regeneração como motivação principal, mas geralmente numa perspectiva auto-centrada: vem para se regenerar, caminhar, surfar, meditar, apanhar sol.
E o entendimento do turismo que não desequilibra, pelo contrário, regenera, passa pela motivação de entender, aprender para poder participar activamente. É uma atitude cívica, que muitas vezes temos dificuldade em assumir no nosso quotidiano, tanto quanto numa viagem.
Mas uma área rural, uma comunidade menor, pode ser uma incubadora para novos modelos de participação. Precisamos de alguém que nos traduza as necessidades e especificidades dos lugares, e podem ser as comunidades que visitamos, a sua organização, os seus ofícios e escolhas, celebrações e rituais, que nos podem inspirar nas férias e na vida, no lugar que habitamos, de férias ou em permanência.
É este o mote para o Turismo de Aprendizagem. Estamos todos a aprender; o que é isso de ser turistas ou viver num lugar turístico? Como nos relacionamos com o turismo, sabendo como ele pode ser predatório dos espaços e comunidades? Como transformamos as nossas viagens, sabendo que precisamos realmente de relaxar e libertar culpas e tensões?
O Turismo não é mais do um espelho da sociedade. Um espelho encantado, onde vivemos fantasias e sonhos, em contraste com um quotidiano que nos consome. E é isto que um novo lugar pode ter para nos ensinar: um quotidiano de interacção que nutre, sem esforço, naturalmente. Para isso, tem que haver esforço prévio de preparação por parte dos territórios que querem realmente usar o turismo como força de regeneração.
Se falamos em turismo rural, de natureza, resgatemos a forma mais basilar de aprendizagem: a natureza e os ecossistemas.
Basta observar com um pouco de sensibilidade e em alguns casos recorrer a estudos muito valiosos, para entender o que acontece às falésias enquanto são respeitadas e cuidadas sem dejectos e pisoteio desordenado, aos solos enquanto a agricultura cuida deles continuamente enquanto fonte de vida, às zonas ribeirinhas enquanto a água abunda e toda a filtragem funciona, às florestas diversas e tão generosas em produtos que nos alimentam, às aldeias piscatórias enquanto são formadas por comunidades de gente que habita e veio para ficar, para cuidar. E a maior parte destas questões são transversais a tantos destinos. A tantos lugares.
Como se comunica o equilíbrio e coesão territorial?
O desafio para a Rota Vicentina é também trabalhar a comunicação do território, e ser a voz da natureza, dos ecossistemas como parte fundamental da tal Identidade. Depois do primeiro vídeo promocional “Two Steps to Freedom” em 2012, a RV lançou outros dois: “Amor a Esta Terra” em 2018 e “A Paisagem que Escolhemos” em 2023. Todos foram amplamente premiados (o último seleccionado pela TAP nos voos de longo curso) e uma referência para o sector.
Em 2026, falta dar um passo mais concreto, consolidar o papel de ponte: facilitar a escolha informada do turista, facilitar o seu propósito de ser parte da solução, de participar em novas e promissoras formas de interacção territorial e comunitária. Falar em nome da floresta e do medronho, dos campos agrícolas e dos pequenos produtores, do montado e das carnes de pasto extensivo e pastoreio, da costa e dos seus peixes e mariscos tão variados, dos rios e ribeiras a da sua fragilidade.
A isto se chama equilíbrio e coesão territorial: promover a atracção dos vários cantos do território, para além das paisagens fotogénicas das falésias. Dinamizar a economia espalhada pelas aldeias, montes e vales. A pé, de bicicleta, dormir, comer, aprender, participar, oxigenar as vias do interior e fazer o encontro inspirador entre quem se regenera diariamente com a terra e quem procura fazer o mesmo por alguns dias.
Experimentemos formas mais participadas, complexas, diluídas de fazer turismo, de interagirmos, em casa e em viagem. O Mundo precisa de uma revisão urgente mas inspiradora!
Na prática, foram seleccionados alguns temas chave e produtos-piloto ancorados nas áreas menos turísticas do território (a serra e os campos agrícolas) para estruturar a estratégia colectiva, mantendo presente a perspectiva de escalonamento progressivo para outros produtos. Aqui ficam três exemplos:
- O Medronho, através da Associação Arbutus, com quem temos trabalhado este potencial de “aprendizagem”. O Medronho não apenas como produto escalável e massificável, mas como produto da terra, com as suas limitações e camadas.
- A vaca de raça Garvonesa, através da Cooperativa Farrusca, com quem alinhamos o esforço de promover a raça para consumo, junto dos restaurantes da rede e do público final. Uma raça endémica sem melhoramento genético, que sobreviveu por esforços de conservação da natureza aliados à resiliência de poucos produtores.
- O SAL – Sistema Alimentar Local – é coordenado pela Cooperativa Regenerativa e trabalha a ponte entre produtores locais a grandes consumidores. Também aqui a cadeia turística pode ter um papel fundamental de valorização e sustentação destes investimentos, que se pautam pela qualidade e variedade das produções, adaptabilidade e ancoragem na sazonalidade.
* PROVERE – Programa de Valorização Económica dos Recursos Endógenos
Geriu a Associação Casas Brancas até 2013 e co-fundou a Associação Rota Vicentina, que presidiu até 2025, estruturando o papel do ecoturismo e das redes locais na regeneração dos territórios rurais.
