Uma viragem na Governança da Rota Vicentina

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Reflexões em tempos de mudança

Há três anos voltava de um Congresso no Brasil com um misto de entusiasmo e desencanto. Foi difícil deslaçar as emoções e lembro-me que me custou a aterrar, semanas depois do avião.

Hoje olho para trás e entendo bem o que se passou: os nossos anfitriões brasileiros admiravam a Rota Vicentina pelo profissionalismo da equipa e do trabalho, pelo envolvimento das empresas e a dimensão económica.

Mas eu vim impactada pela qualidade daquele evento, feito em tempo record com alguns elementos das equipas dos parceiros, muitos voluntários e uma dose de boa vontade absurda. Na mesma altura conheci o trabalho da Orla Design e os Catalisadores Comunitários e começou uma jornada de aprendizagem em torno dos processos, mais do que dos resultados. Entendi que me faltava treino para gerir entusiasmo, frustração, pressão, liderança e força criativa. E que muito menos era capaz de motivar os meus colegas a fazerem o mesmo.

Nestes três anos investimos o que pudemos – verba, mas sobretudo tempo! – em capacitar a equipa com ferramentas de tecnologia social, que valorizassem, facilitassem e potenciassem o nosso trabalho, individual e colectivo. E que nos ajudassem a sermos humanos, também no trabalho, com todas as fragilidades e faculdades que nem sempre têm terreno fértil para vir ao de cima. O resultado foi uma revolução! Nas vidas de muitos de nós e, acredito, no futuro da Rota Vicentina.

Equipa da Rota Vicentina nas instalações

Há dezoito meses percebi que era chegada a hora de passar a liderança da Rota Vicentina e logo após a minha decisão entrei num burnout intenso. Como é próprio destes processos, tive tempo para me regenerar e conquistar uma consciência mais límpida e madura, mas também se clarificou a imagem que colegas e parceiros tinham sobre mim e sobre o meu papel.

Foi um factor acelerador, facilitador da mudança. Toda a autonomia que a equipa havia adquirido com a capacitação em Sociocracia 3.0 revelou-se durante a minha ausência. Tudo funcionou, excepto a liderança.

Um novo sistema de Governança

Há seis meses – sabendo que haveria eleições por esta altura – equipa e Direcção começaram a trabalhar num novo sistema de Governança, mais colaborativo, participativo, realista. Por um lado, distribuir a coordenação técnica dentro da equipa, por outro lado dotar uma nova Direcção de associados voluntários com as ferramentas que tornassem o cargo viável, atractivo e gratificante.

Uma mudança determinante foi o lançamento de Grupos de Trabalho temáticos que vão somar-se à dinâmica já garantida pela equipa e pela Direcção. Os Grupos de Trabalho irão multiplicar a capacidade de acção e envolver definitivamente os associados a partir das suas motivações específicas.

Cultivar o espírito associativo, voluntário e colaborativo é nesta fase um sério compromisso desta Associação, em nome da sua resiliência, vivacidade e impacto num território que, queira-se ou não, tem uma vocação turística inegável. Há que unir esforços, cada vez mais e melhor, para conduzir os caminhos do turismo no Sudoeste para uma realidade de integração comunitária, paisagística, ecológica e socio-económica.

A mudança de paradigma cada vez mais premente no mundo só reforça a importância deste caminho, bem ancorado nas pessoas, na sua visão e movimentação colectiva. Os dados estão novamente lançados. Vejamos quem vai a jogo.

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Marta Cabral

Geriu a Associação Casas Brancas até 2013 e co-fundou a Associação Rota Vicentina, que presidiu até 2025, estruturando o papel do ecoturismo e das redes locais na regeneração dos territórios rurais.

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