1.º Congresso Brasileiro de Trilhas – que aprendizagem para Portugal?

12 minutos de leitura

Reflexões de Marta Cabral

Nota prévia:
Este texto é uma assumida amálgama de português de Portugal e do Brasil. Opto por dedicar algum tempo a escrever este texto no rescaldo do evento, como forma de sistematizar ideias, não apenas sobre o que se passou, mas sobretudo sobre o que trouxe comigo de aprendizagem, reflexão e inspiração para a Rota Vicentina e para o mundo dos trilhos em Portugal.


Fui convidada pela Rede Brasileira de Trilhas e pela Goiás Turismo a participar do 1.º Congresso Brasileiro de Trilhas e a apresentar uma palestra sobre a Rota Vicentina como motor de desenvolvimento económico regional. Volto a agradecer a oportunidade e, acrescento, que foi a primeira vez que participei de um evento com alguma escala sobre o tema dos trilhos. Só não sabia que ia ter esta qualidade e esta magnitude! Um infinito obrigada!

O Congresso seguiu a um ritmo alucinante que optei por acompanhar tanto quanto possível, deixando a actualização deste post para mais tarde. Sentada no avião, estou finalmente em condições de digerir o muito que se passou. A primeira nota é de profunda gratidão por ter tido a oportunidade de participar de um momento tão especial, daqueles que não se repetem, daqueles que fazem história. Um evento de enorme escala, 3 dias de palestras e 1 dia com saídas de campo, 140 palestrantes, 40 mesas de debate, 700 participantes no Centro Cultural Óscar Niemeyer em Goiânia, 1300 participantes online. Em poucas linhas, uma qualidade técnica da programação e das palestras notável, uma organização impecável, mas sobretudo uma massa humana de gente altamente capacitada e motivada para transformar o Brasil num país trilhável, trilhado, trilheiro.

O movimento de montanhistas e caminhantes voluntários aliou-se há 10 anos à conservação da natureza e criou a Trilha Transcarioca, projecto que se tornou referência e impulsionou tantas iniciativas pelo país fora. A mesma base que impulsionou a Transcarioca, motivou a criação de uma rede de trilhas a nível nacional, multi-modal, um sistema que garantiu articulação institucional, legal, estratégica, técnica, turística investigativa. Uma rede entre a conservação da natureza, o voluntariado, instituições governativas, turismo, economia de base comunitária, mas sobretudo uma malha que una o país a pé, mas também de bicicleta ou por outros meios não motorizados, por trilhas escolhidas e marcadas por quem sabe, e seguindo uma matriz comum, para usufruto de todos.

Depois de 2 anos de pandemia, esta comunidade reforçou a sua convicção sobre a importância de uma rede de trilhas consolidada à escala nacional para um futuro sustentável no Brasil. O Congresso foi preparado em 4 meses por uma equipa de 8 pessoas espalhadas pelo país, que não se conheciam e que se articularam por WhatsApp. Conseguiram montar um encontro de voluntários, gestores de trilhas, entidades públicas, Unidades de Conservação e investigadores, que se juntaram em 3 programas intensivos e concorrentes, para falar sobre o que era prioritário para um primeiro encontro nacional.

O local escolhido foi particularmente feliz: Goiânia fica na zona Centro, no coração do país, no bioma Cerrado, tão importante (um dos 4 mais extensos do planeta) e pouco valorizado, até há pouco tempo. Não pude deixar de sentir o nosso Alentejo naquela paisagem semi estepária, mas numa versão “sonhada”, com árvores e flores que eu nunca tinha visto, cachoeiras, beija-flores, carcarás e macacos. O lobo guará não se deixou ver mas fez-me sonhar! Este destino foi também bem escolhido por se afastar tanto dos principais símbolos turísticos do Brasil! Senti Goiânia como uma boa amostra de um Brasil profundo, onde o turismo é muito bem-vindo e pode estender-se trilhas afora, comendo, conversando, forrozando, contemplando, partilhando, sem pressas nem predação. Um bom símbolo de compromisso com uma forma de turismo de dentro para fora, como tem que ser o turismo do futuro.

O momento foi brilhante, à saída de uma pandemia, que mexeu com o turismo mas sobretudo com a ligação entre as pessoas. O sentimento por aquela reunião inesperada com tantos pares rasou a euforia, e o entusiasmo emocionado transformou-se em empenho, foco, profissionalismo e determinação.

O Brasil tem problemas de desenvolvimento sérios, alguns só se resolverão ao longo de várias gerações, podendo este tempo ser abreviado com políticas públicas sérias e responsáveis. Mais ou menos como acontece em quase todos os países do mundo. Mas o que eu vi foi um movimento de responsabilização sobre o futuro do país que acredito que não exista em Portugal há décadas, e ocorre-me a revolução do 25 de Abril como última referência. É nesta união entre pessoas que eu acredito e em mais nada. No esforço colectivo para pensar e agir, mas também para sentir e celebrar. O que se passou nestes dias de congresso foi o lançar de uma revolução que há muito borbulhava. Se o poder político vai acompanhar? Não faço ideia, mas o que foi dito pelas várias autoridades no momento de encerramento foi emocionante. Nas palavras de Mário Mantovani, os últimos anos foram dolorosos para quem segue uma luta ambiental no Brasil, mas o 1.º Congresso de Trilhas lavou-nos a todos a alma! Saímos ainda mais motivados para fazer acontecer, unidos e fortes. Até eu, que não sou brasileira!

O Congresso de 2023 já tem local marcado: Niterói, do ladinho do Rio de Janeiro! Vou sonhando em regressar, mas gostava de ver lá outros profissionais portugueses!

Ficam ainda algumas notas soltas, dirigidas sobretudo aos portugueses que se interessam por estes temas. Os tópicos foram vários:

  • Governança

    “Como é que a gente vai organizar essa bagunça?” – Pedro Cunha e Menezes.
    A “bagunça” é uma rede muito extensa, também pela dimensão do país, e a necessidade de uma articulação e suporte institucional que assegure coerência, efeito de escala, financiamento, garantia de ligação aos territórios e sociedade civil, academia a iniciativa privada, numa lógica inter-sectorial de âmbito nacional. A massa crítica gerada – de que este Congresso foi um óptimo símbolo – mas sobretudo a pertinência de um sistema de trilhas à escala nacional têm força para exigir do Governo um primeiro passo imediato neste sentido. Em Portugal não existe um movimento semelhante. A federação não tem uma ligação efectiva aos territórios, as comunidades não sentem os trilhos como parte da sua vida e os empresários muito menos, as instituições entendem o potencial económico mas não há um compromisso real. Há um pouco disto tudo, mas temos ainda muito caminho a percorrer, e acredito que terá que ser percorrido nos trilhos, e não nos gabinetes.  

  • Voluntariado

    Motivo de orgulho ou desresponsabilização do poder público? O movimento de voluntariado é fortíssimo, em comparação com Portugal. A Associação Rede Brasileira de Trilhas não tem actualmente um único funcionário, trabalha numa base totalmente voluntária. Se por um lado é um óbvio motivo de orgulho, é evidente que o caminho sustentável e responsável passa pela profissionalização do trabalho desta Associação, como foi assumido neste congresso. As iniciativas locais e estaduais partem em muitos casos de base comunitária e voluntária, podendo vir beber de um inestimável apoio associativo da rede nacional, devidamente estruturado e fortalecido. Para Portugal, este é um desafio de envolvimento das populações, de investimento numa cultura de caminhada de que precisamos desesperadamente. Para mim, pessoalmente, é ainda uma equação que interessa muito explorar.

  • Geografia, natureza, história, cultura, comunidades

    Olhar a geografia a partir dos trilhos que a cruzam, que nascem da necessidade de a percorrer, é devolver a geografia ao interesse público. A biodiversidade, a história dos lugares, a sua cultura, está espalhada pelos territórios e não se concentra nos atractivos turísticos. Os trilhos fomentam a diversidade e devolvem o protagonismo às comunidades e suas particularidades.

  • Biodiversidade e conservação

    Esta é a grande força motriz deste movimento. Como diz o Pedro Menezes, “todos os que acreditam que não há futuro para a biodiversidade sem visitação estão connosco”. Foi um gosto perceber que há muito conhecimento de base, muitos biólogos e ambientalistas no congresso, muita gente que conhece tecnicamente o dossier e pode responder por ele. Lamento muito verificar uma dolorosa ausência das instituições da conservação da natureza na liderança do ecoturismo, é algo que temos mesmo que melhorar e acredito que só as novas gerações podem virar este jogo, porque o risco em Portugal é sermos comidos pelo turismo green washed.

  • O turismo de base comunitária

    Poderá ser um dos pontos fortes da oferta de trilhas no Brasil. A sua diversidade étnica, cultural, geográfica, é fascinante e profundamente necessária para o turismo de hoje. O desenvolvimento de trilhas de longo curso em áreas remotas com a participação das comunidades, devidamente apoiadas e reconhecidas, parece um caminho sem volta para uma maior consciência sobre a identidade do Brasil e da humanidade. O trabalho que temos feito na Rota Vicentina tem esta matriz, mas queremos seguir de mãos dadas com o Brasil e fazer mais e melhor.

  • Monitorização, envolvimento e tecnologia

    Conhecermos quem circula e contarmos com quem circula para conhecermos o que se passa. Uma malha densa de trilhos bem frequentados é o melhor aliado às políticas de educação, preservação e conservação da natureza e foram apresentados como “corredores ecológicos” muito efectivos. Os caminhantes experientes tornam-se especialistas, vigilantes, cuidadores, investidores. Projectos científicos de importância nacional já se baseiam nesta premissa. A Rede Brasileira de Trilhas tem o seu próprio sistema de gestão de trilhas e conteúdos (eTrilhas: site e aplicativo mobile) e coopera com objectivos diversos, nomeadamente de segurança. Em Portugal a escala dificulta, mas temos que avançar, pelo menos com um sistema eficaz desenvolvido à escala nacional!

  • Gestão dos parques e concessões

    Há muito tempo que o governo no Brasil desenvolveu concessões de gestão das áreas protegidas. Podemos concordar ou discordar, mas parece-me obrigatório explorar possibilidades, entender vantagens e desvantagens, questionar e encontrar soluções de uma gestão efectiva, pró-activa e próxima de quem se relaciona com a natureza.

No encerramento do congresso, foi feita uma ronda de impressões das principais entidades envolvidas. Turismo regional, Município anfitrião, Ministério do Meio Ambiente, Ministério do Turismo, ICMBIO (corresponde ao ICNF em Portugal), Rede Brasileira de Trilhas, Fundação Florestal. Os compromissos assumidos foram ambiciosos, reais e estimulantes, e mesmo não havendo garantias de concretização não sobraram dúvidas sobre o efeito de contágio do evento. Recomendo que assistam o vídeo da mesa de encerramento. 

Deixo ainda alguns shortcuts para momentos chave do vídeo do encerramento:


Portugal ainda não encarou de frente este desafio, talvez porque a tal “cultura de caminhadas” e mesmo de natureza não nos esteja hoje nas veias. O mundo do turismo de caminhada não está ligada à conservação da natureza – sobretudo no plano institucional – e teríamos aí uma fortíssima oportunidade de tirar as questões ambientais da sombra. Por outro lado, como diz o Pedro Menezes, “não queremos um conjunto de trilhas e sim de um sistema que permita partilhar uma estrutura e recursos comuns”. É exactamente o que nos falta, Portugal!

Quanto ao Brasil, “abençoado por Deus e bonito por natureza” parece estar a postos para fazer um bom caminho. Força, Brasil!

Marta Cabral

Nasceu em Lisboa no ano de 1975. Na Associação Rota Vicentina assume o papel de Presidente da Direcção. Nos tempos livres, gosta de caminhar, andar de bicicleta, ler, yoga, silêncio e festas!

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