É tempo de Re.Generar, Re.Juvenescer, Re.Ativar e Re.Conectar as Paisagens Rurais

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Três dias na Caravana Re-Rural

Inscrevi-me na Caravana Re-Rural que percorreu durante três dias um novo Alentejo, com 50 pessoas a bordo e um programa inspirador e ambicioso.

A proposta era esta: “A Caravana Re.Rural não é apenas um percurso entre três vilas – São Luís, Montemor-o-Novo e Mértola – é um convite para nos reunirmos em torno de práticas regenerativas, para conhecer pessoas e projetos que cuidam da terra e das comunidades e para fortalecermos o Ecossistema Re.RuRal. Um ecossistema de organizações que cuidam de paisagens rurais, semeando estilos de vida agroecológicos, comunidades resilientes e juventudes despertas. Para cultivar culturas de COoperação e REgeneração, promovendo o florescimento da vida em todas as suas formas — humanas e mais-que-humanas. Cada paragem, cada refeição partilhada, cada conversa é pensada com carinho e intenção para nutrir o corpo, a mente e a alma”.

O mote “Tempo de Re.Generar, Re.Juvenescer, Re.Ativar e Re.Conectar as Paisagens Rurais, mas também os nossos próprios caminhos, ideias e formas de estar” não podia ser mais inspirador e alinhado com o propósito da Rota Vicentina de trazer o turismo para esta equação.

Em Outubro, já tinha vindo de um primeiro encontro deste “ecossistema”. Uma semana ancorada no Co.Re – Rural Learning Center em São Luís, com um grupo de Regeneradores europeus para dar corpo ao objectivo: “Re-Rural Network – Partnership Building Activity”.

Eu vinha de um contexto de burnout claramente motivado por uma cultura pouco regenerativa e um trabalho com um propósito muito valioso e exigente de trazer qualidade de vida ao território. Um óbvio contra-senso. O grupo rapidamente assumiu o desafio maior de “regenerar os regeneradores”, walk the talk, sermos para estarmos. Foi, portanto, fácil entregar-me ao processo, com facilitação muito cuidada e inspiradora, objectivos ambiciosos e um grupo com vontade e capacidade de mudar o mundo para melhor.

Sobreiro grande no Alentejo

O mais relevante foi o segundo entendimento: temos de estar unidos, de forma inteligente, eficiente, humana, afectiva. Temos de assumir a humanidade que há em nós na tarefa de trabalhar com uma motivação tão fundamental, a de inovar e romper barreiras obsoletas, cristalizadas e desmotivadoras. E saber trabalhar em conjunto é uma arte e requer inspiração, espaço, confiança e método.

Explorar conceitos e aplicações

O grupo era heterogéneo e, para mim, representativo de uma parte da humanidade que está realmente comprometida em abrir caminho para servir o colectivo. Mas debaixo de uma camada mais superficial, havia algo mais que nos unia.
O termo ‘Sustentabilidade’ está mais do que desgastado e a Regeneração vai pelo mesmo caminho. Há que trazer clareza e compromisso ao seu uso. O que fizemos neste grupo foi explorar conceitos e aplicações, nos nossos territórios e projectos, para além de nós próprios enquanto pivots de mudança, enquanto Catalisadores Comunitários. Mas fizemos mais do que isso: sonhámos em conjunto e explorámos possibilidades de cooperação efectiva, em nome de um efeito acelerador tão crucial neste movimento. E lançámos os próximos passos.

Em Janeiro, juntei-me a um novo grupo mais pequeno, numa visita de estudo a Olot, a convite da Cooperativa Regenerativa, também de São Luís, no âmbito do projecto CARE – Collectively Activating Regenerative Economies. A Catalunha é um território pioneiro neste movimento com décadas de trabalho no terreno. Foi uma viagem ao futuro e uma lição de força comunitária, resiliência, foco no futuro e no bem comum. Voltei inspirada e, sobretudo, muito confiante no pensamento e estratégia que desenhamos para a Rota Vicentina e para o seu papel neste território.

Voltando à Caravana, deste vez o grupo vinha todo de Portugal e o objectivo era conhecermos o trabalho no terreno e cruzarmos aprendizagem. Em São Luís, o tema era Rejuvenescer, e é a prova de que um pequeno investimento na juventude pode desencadear um movimento sem volta: quase não se viam jovens em São Luís há poucos anos atrás e hoje há um grupo inspirador que trabalha e sonha em conjunto connosco. Mudam-se os discursos, mudam-se as vontades. À noite, jantamos no Espaço Nativa, um restaurante que é uma escola de comer com consciência: produção local, seleccionada e confeccionada com profundo compromisso.

Grupo de pessoas sentadas no chão em círculo no campo

Estratégia e determinação

Montemor-o-Novo é pioneiro nos novos movimentos colectivos, com as Oficinas do Convento, mas também a Cooperativa Minga cuja história e resultados nos inspirou a Reactivar a dinâmica económica local – sem fundamentalismos, só com estratégia e determinação. Jantar comunitário no largo, mesa comprida e cante alentejano até nos doer a voz. Ouvir as mulheres cantar, sentir a rejuvenescida vibração do cante, das letras, das melodias nada óbvias, o corpo segue e canta a plenos pulmões. Acordai!

Em Mértola, começamos por regenerar o corpo com um mergulho no Guadiana e um chá de menta! E seguimos para a Horta da Malhadinha para aprender o que é isso de plantar água e de criar uma agro-floresta sintrópica num território árido e descrente. O jantar veio dali e foi servido no centro histórico, seguiu-se mais um serão para refrescar, digerir, celebrar! De manhã, regressamos ao Sudoeste para uma visita à Rota Vicentina, numa linda floresta do Monte da Estrada. Pausar, respirar, Reconectar. Connosco, com a natureza abundante, com a confiança na humanidade. E repensar o (eco)turismo e a caminhada como prática de ampliação da consciência de si próprio, da comunidade que pertence ao ecossistema de cada lugar, e de um todo maior e universal que nos liga a tudo – e a todos. Na partilha final emocionei-me muito. Porque senti que é na humanidade – na nossa natureza humana – que está a fonte da minha inspiração, que não sei trabalhar de outra forma. E é difícil, como mulher e como líder, mas uma vez sentido esse caminho debaixo dos pés, não há como recuar.

A mudança é urgente e é tempo de abrandar. Sim, é hora de desacelerar, inspirar e seguir o caminho da Regeneração, bem acompanhada de quem, como eu, quer mesmo construir um mundo melhor, reconhecendo que fomos longe demais e que a prosperidade não está na produção e sim no consumo, num consumo mais consciente, nutridor regenerador.

E o ecoturismo será a única forma viável de viajar no futuro. Porque busca a ecologia inata e integral da qual todos dependemos para estarmos vivos, e não apenas sobrevivermos.

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Marta Cabral

Geriu a Associação Casas Brancas até 2013 e co-fundou a Associação Rota Vicentina, que presidiu até 2025, estruturando o papel do ecoturismo e das redes locais na regeneração dos territórios rurais.

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