“Um pequeno contributo na construção de algo grande”

6 minutos de leitura

A opinião de João Ministro sobre o Curso para Guias Locais


Tive o imenso prazer em colaborar, a convite da Associação Rota Vicentina, na organização e preparação deste curso.

Um desafio bastante interessante e aliciante que de imediato aceitei, sabendo que estaria a colaborar em algo novo e diferente do que é usual em Portugal, no que a cursos de guia turísticos diz respeito. Ainda que tenhamos um longo historial de formação nesta área, a verdade é que a maioria da oferta que hoje existe no país recai quase sempre no convencional curso de guias de pedestrianismo, turismo de natureza, turismo sustentável ou de guias intérpretes. O tema ambiental está presente em todos eles, de forma mais ou menos evidente e estruturada, mas raros são os cursos onde se discutam a fundo as questões da responsabilidade territorial e o papel dos guias enquanto agentes de mudança na actividade turística dos destinos.

Foi isso o que desde logo cativou a minha participação nesta iniciativa, bem como a missão plenamente assumida pela Rota Vicentina em contribuir para uma mudança no paradigma turístico dessa região tão especial – a Costa Alentejana e Vicentina – e em fomentar uma oferta mais responsável, transversal e coesa, mais regenerativa e resiliente, perante os valores culturais, naturais e sociais, sem esquecer, naturalmente, os económicos.

Do território nasce tudo aquilo que tanto admiramos e “transformamos” para proporcionar as experiências positivas aos que nos visitam. É dele que retiramos o nosso sustento. É nele que interagimos socialmente e assentamos as nossas raízes culturais, ancestrais e contemporâneas. É nele onde estabelecemos as nossas comunidades e no qual exploramos os recursos. Por tudo isso e muito mais, temos de ser capazes em devolver algo que impulsione a sua boa gestão, conservação e valorização. O Turismo não pode ficar à margem desse desígnio e os seus principais actores, os guias, também não. Por tudo isto estou convicto que o curso surgiu num momento particularmente pertinente e desejado.

O curso procurou equilibrar, na medida do possível, duas abordagens metodológicas: sessões em sala, com experientes e inspiradores convidados, e saídas de campo temáticas e interactivas, com especialistas em diversas matérias. Os tempos foram curtos nalguns casos e ajustados noutros. E vários assuntos validados em inquérito prévio realizado junto dos parceiros da Associação.

Entre os vários temas que de imediato quisemos trazer para a discussão neste curso, o da Ética foi um dos mais consensuais.
Esse terá sido, porventura, um dos mais marcantes e com maior significado perante o que quisemos atingir com este projecto: uma reflexão na forma como agimos turisticamente junto do território, suas comunidades, seus valores e seus recursos.
Mas, como sabíamos desde o princípio, os temas não iriam ser estanques e ao longo das várias semanas foram vários os momentos em que as conversas se cruzaram e em que houve uma reinterpretação daquilo anteriormente falado, mas sob outra óptica e perspectiva. Tal contribuiu de forma muito preciosa para o solidificar dos conhecimentos adquiridos e para a interiorização individual do papel fundamental de cada um nesta actividade tão global, como a de ser guia turístico, e na prossecução de uma actividade mais responsável.

A seleção dos participantes não foi fácil. Para 10 vagas receberam-se cerca de 130 inscrições, pelo que houve necessidade de uma atenta e exigente escolha. O grupo final selecionado, além de bastante heterogéneo – não apenas ao nível de idades, da sua experiência profissional em turismo e das suas motivações pessoais -, traduz uma ampla diversidade geográfica da Rota Vicentina e apresenta uma rica variedade de interesses turísticos a desenvolver.
Tudo isto tornou o grupo bastante interessante e permite-nos hoje ambicionar várias realidades. Por um lado, uma oferta turística mais distribuída no território da Rota Vicentina, com novos enfoques, nomeadamente nos valores culturais do interior, e nesse sentido uma maior coesão da oferta da região. Permite, também, uma maior aposta em experiências autênticas e genuínas, de maior valor integrado e ligação às comunidades. E, naturalmente, uma distribuição mais horizontal da oferta ao longo do ano, sem dependência por um período em concreto, reforçando a resiliência do destino. Temos uma grande esperança que este grupo – ou grande parte dele – se active, ou continue activo, neste território e sejam agentes mobilizadores na prossecução dos objectivos traçados.

“Um pequeno contributo na construção de algo grande”

É assim que vejo a minha colaboração neste interessante e singular projecto, bem como nos propósitos a que o mesmo se destinou. Algo de novo e muito positivo nasceu desta acção e quero acreditar que iremos assistir a interessantes iniciativas nesta região.

Não quero deixar de referir, por fim, a excelente e valiosa colaboração de toda a equipa da Rota Vicentina neste projecto, com a qual tive imenso gosto em trabalhar, e à de muitos Associados que ajudaram, colaboraram e muito amavelmente apoiaram o primeiro curso de guias locais de turismo responsável da Rota Vicentina que certamente não será o último. A todos eles os meus agradecimentos.

Tags:

João Ministro

Coordenou diversos projectos de conservação da natureza, educação ambiental e ecoturismo no Algarve, como a Via Algarviana ou o Festival de Observação de Aves em Sagres.  É fundador da Proactivetur, empresa de animação turística e operador turístico / DMC especializado em ecoturismo, turismo criativo e desenvolvimento local.

As nossas sugestões

30 Jan 2023 Aviso Viagens

Algo correu mal? Conte-nos tudo!

Partilhe connosco o problema que encontrou nos trilhos da Rota Vicentina.

Irene Nunes
04 Nov 2022 Artigo Estratégia & Sustentabilidade

Quer ajudar a Associação Rota Vicentina? Faça um donativo!

Pode ajudar a Rota Vicentina com o seu tempo, de forma pontual ou contínua, ou com um contributo financeiro, através de um donativo.

25 Out 2022 Artigo Viagens

Onde comprar mapas e guias da Rota Vicentina?

Está a planear a sua caminhada no Trilho dos Pescadores ou no Caminho Histórico? Saiba onde encontrar os mapas e guias de campo oficiais da Rota Vicentin[...]

10 Out 2022 Aviso Viagens

Aviso aos caminhantes: corte de árvores em S.Martinho das Amoreiras

Há um corte de árvores que dificulta passagem no Percurso Circular S. Martinho das Amoreiras.

Irene Nunes
04 Out 2022 Clipping Viagens

Rota Vicentina no jornal britânico The Guardian

Jornal britânico “The Guardian” destaca Rota Vicentina como um dos melhores destinos de caminhada na Europa.

Beatriz Silvestre
05 Ago 2022 Artigo Comunidade

Na Agenda Rota Vicentina, cabe tudo e mais um par de botas!

A Agenda da Rota Vicentina celebrou 2 anos e neste artigo mostramos tudo o que nela cabe! Spoiler: é mesmo tudo e mais um par de botas!

Delphine Attali

Subscreva à nossa newsletter

Continue a fazer scroll para ver o próximo artigo
01 Abr 2022 Artigo Estratégia & Sustentabilidade

Bem-vindos ao novo Blog da Rota Vicentina!

2 minutos de leitura Clique para continuar a ler